domingo, 16 de junho de 2013

O amor celebrado

Quando era criança, assistia a filmes e novelas românticas e pensava:  será que um dia escutarei “eu te amo” de alguém? É bem verdade que ouvia  todo dia da minha mãe, mas não era do mesmo jeito que o Francisco Cuoco  dizia para a Regina Duarte. Eu sonhava com o “eu te amo” apaixonado,  dito por um homem lindo, e com a voz um pouco trêmula, para deixar a  emoção mais evidente. Será que era invenção do cinema e da tevê, ou  essas coisas poderiam acontecer mesmo? Era esperar para ver.
  
Passou  o tempo. Cresci, ouvi e retribuí. Clichê? Que seja, mas não há quem não  se emocione ao escutar e ao dizer, ao menos nas primeiras vezes, em  pleno encantamento da relação, quando a declaração ainda é fresca,  pungente, verdadeira, a confirmação de algo estupendo que se está  experimentando, um sentimento por fim alcançado e que se almeja eterno.  Depois ele entra no circuito automático, vira aquele “te amo” dito nos  finais dos telefonemas, como se fosse um “câmbio, desligo”.

O  tempo seguiu passando, e me encontro aqui, agora, descobrindo que há  outro tipo de “te amo” a ser escutado e falado, diferente dos que  acontecem entre pais e filhos e entre os amantes em relacionamentos  vigentes. É quando o “te amo” já não é dito para firmar um compromisso,  para manter alguém a par das nossas intenções ou para experimentar uma  cena de novela. O “te amo” da maturidade vem desvinculado de qualquer  mensagem nas entrelinhas, não possui nenhum caráter de amarração e  tampouco expectativa de ouvir de volta um “eu também”. Ele é singular.  Estou falando do amor declarado não só quando amamos com romantismo, mas  também de outra forma.

A experiência tem se dado do seguinte  modo: tenho dito “eu te amo” para amigas e amigos, e escutado deles  também. Uma declaração bissexual e polígama, que resgata esse sentimento  das garras da adequação. Volta a ser o amor primitivo, verdadeiro, sem  nenhuma simbologia, puro afeto real. Amor por pessoas que não conheci  ontem num bar, e sim por quem já tenho uma história de vida  compartilhada. Amor manifestado espontaneamente àqueles que não me  exigem explicações, que apoiam minhas maluquices, que fazem piada dos  meus defeitos, que já tiveram acesso ao meu raio-X emocional e sabem  exatamente o que levo dentro – e eu, do mesmo jeito, tudo igual em  relação a eles. Mais do que nos amamos – nos sabemos.

É um “eu te  amo” que cabe ser dito inclusive aos ex-amores, ao menos aos que nos  marcaram profundamente, aos que nos auxiliaram na composição do que nos  tornamos, e que mesmo nos tendo feito sofrer, foram fundamentais na  caminhada rumo ao que somos hoje. E indo perigosamente mais longe: esse  ex-amor pode ainda ser seu marido e sua mulher, mesmo já não fazendo seu  coração saltar da boca. Pelo trajeto percorrido, e por ter alcançado o  posto de um amigo mais que especial, merece uma declaração igualmente  comovida.

É quando o “eu te amo” deixa de ser sedução para virar celebração.


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