segunda-feira, 11 de junho de 2012

O vinho, o violão, a música.


Unhas enormes e vermelhas, não tão enormes, mas bem cuidadas e pintadas de um vermelho sangue, um som ambiente daquela cantora que tem uma música assim: Rolling in the deep, Tears are gonna fall, rolling in the deep. Não sei ao certo o nome dela, mas inicia com A. Enfim, dedos magros e bonitos, cheios de anéis, um telefone na mesa de cabeleira, ao lado da cama desarrumada, mais considerada um altar de veneração a algum deus ou semideus sem nome, talvez o deus do vinho, que existe na mitologia grega, Dionísio, não é? Por que escolhi esse deus? Bem simples, por que naquele quarto de hotel barato, há garrafas de vinho cheias e vazias, vinho tinto, vinho branco, rose, suave e outros vinhos. Lembro-me que a última garrafa foi aberta ao som da mesma música, mas com uma forte chuva caindo lá fora. Ao som daquela música eles dançavam, depois de secar duas garrafas de vinho, e comer uns salgados queimados e caseiros. As horas passavam tão rápido que já eram 3 da manhã quando pararam a dança esquisita e riram muito, deviam estar bêbados, mas ao meu tempo o olhar deles era tão sóbrio, tão lúcido que confundia até a mente mais sã. Depois da dança, depois dos olhares vieram os sorrisos, sorrisos tão cheios de prece, de pedidos ocultos, pedidos nunca feitos, pedidos de: fica comigo eternamente? Depois, depois, depois que o tempo tinha passado eles nem sabiam que podiam se encontrar, que iam se encontrar, mas se encontraram e foram felizes, por uma noite, mas foi uma felicidade tão terna que até hoje prevalece. Hoje, uma ou duas semanas depois daquele encontro inesperado. Um bar, uma noite de chuva, um violão, uma vodka... A moça magra e desleixada saiu do quarto pobre, do hotel pobre e foi vagar na rua atrás de algum divertimento, andou meia hora ou mais, e uma chuva iniciou, então, para espantar o frio, ela resolveu entrar naquele bar que estava a sua frente, um bar pequeno, com um letreiro borrado, devido ao tempo, nem o nome ela conseguiu ler, mas mesmo assim entrou, e lá sentiu calor, pois ao fundo havia uma enorme lareira acesa e havia também um pequeno palco, onde um homem moreno, de barba mal feita cantava músicas ao som do violão. Quando de repente seus olhares se cruzaram, houve aquele segundo de silêncio, então a moça desviou seu olhar, foi até o balcão e pediu uma vodka. Tomou essa vodka de um gole só, pra ver se só assim podia encarar a realidade, mas uma dose não era suficiente, então pediu uma dose dupla, engoliu, e viu que não podia fugir da realidade. Era ele sim, era aquele que cantava pra ela, era a mesma voz macia, ele era o dono daquele corpo que fazia dela uma maluca, dono daquele olhar poderoso e forte, dono daquele sorriso acolhedor, sim, era ele, seu amor “mal resolvido”, como ela mesma o denominava. Mas, o que ele fazia ali? Não era ele que tinha abandonado aquela moça para casar com outra? Sim, era. Mas, este casamento não foi consumado, e ele estava ali. Parecia que só havia ela no bar. As horas se passaram, as pessoas estavam indo embora, e a chuva não havia cessado. Para finalizar o show ele cantou aquela música: Muito prazer, o meu nome é otário... E dessa forma terminou o show, colocou seu velho violão preto nas costas e saiu ao encontro dela, quando estavam olho a olho, ele disse: - Eu sabia que um dia encontrava você! Ela apenas o fitava e sorriu. Os dois saíram rumo ao apartamento, foi lançado um convite mudo da parte dela. A rua estava alagada e fria, mas o calor do sentimento deles os mantinha aquecidos. No apartamento, ela ligou o som, e com tanta pressa, acabou deixando cair de cima do som o livro Triângulo das águas de Caio Fernando Abreu, livro que ele tinha dado e que ela sabia de cor. Aquelas 5 horas dentro do apartamento foram tão lindas, tão ternas, que não se pode descrever. E hoje, q moça magra dentro do quarto pobre, do hotel pobre, da rua estranha, lembra-se daquele amor, lembra-se dos momentos vividos, e o guarda no fundo da memória, para que ali permaneçam intactos, e que só ela pode encontrar. Mas, onde está ele? Em algum barzinho com seu companheiro de 6 cordas, ou 7 não sei ao certo, mas ele está por ai, talvez até em outra cidade, mas junto daquele velho violão e com ela no pensamento. Por que não estão juntos ninguém sabe, mas é como eles dizem: deixa o destino agir.

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